
Há alguns dias, ouvi um colega dizer algo que ficou na minha cabeça: “Estou esperando o dia em que os robôs substituam as auxiliares de saúde bucal. Assim não preciso mais lidar com a falta de qualificação.”
Confesso que essa frase me incomodou.
Não porque eu ache que a tecnologia não terá um papel importante na odontologia. Pelo contrário. A inteligência artificial e a automação já estão transformando a forma como trabalhamos.
O que me fez refletir foi outra questão: será que o problema é realmente a falta de qualificação técnica?
A técnica abre portas. Mas são o comportamento, a comunicação e a capacidade de trabalhar em equipe que constroem uma carreira de sucesso.
Ao longo de mais de vinte anos acompanhando Auxiliares de Saúde Bucal e vivenciando de perto a rotina de clínicas odontológicas, observei algo que sempre chamou minha atenção.
As profissionais que mais crescem na carreira nem sempre são aquelas que executam melhor uma instrumentação ou dominam todos os protocolos de biossegurança. Na maioria das vezes, elas compartilham outra característica em comum.
O comportamento.
Pode parecer estranho começar um artigo dizendo isso. Afinal, quando pensamos na formação de uma Auxiliar de Saúde Bucal, é natural lembrar de anatomia, biossegurança, esterilização, instrumentação, atendimento ao paciente e legislação profissional. Todos esses conhecimentos continuam sendo indispensáveis.
No entanto, a prática mostra uma realidade interessante.
A técnica abre portas, pois é ela que permite conquistar a primeira oportunidade. Entretanto, é o comportamento que determina quanto tempo essa profissional permanecerá na equipe, a confiança que conquistará do cirurgião-dentista e as oportunidades que surgirão ao longo da sua carreira.
Muito mais do que uma relação de trabalho
Existe uma característica dessa profissão que poucas pessoas costumam analisar. Nenhum profissional passa tantas horas ao lado do cirurgião-dentista quanto a Auxiliar de Saúde Bucal. o que vou descrever aqui não acontece somente com o ASB, mas também com o Técnico em Saúde Bucal e até mesmo com a Secretária que realizada tarefas mais administrativas
São oito, nove e, muitas vezes, até dez horas por dia compartilhando o mesmo ambiente de trabalho. Durante esse período, ambos atendem pacientes, resolvem imprevistos, enfrentam situações de pressão e precisam manter a concentração em procedimentos que exigem precisão, rapidez e segurança.
Não por acaso, costumo dizer que essa relação se parece muito mais com um casamento profissional do que com uma simples relação de trabalho.
Ao longo dessa convivência nasce a confiança, mas também surgem desafios, desgastes naturais e aprendizados constantes. Além disso, existe uma necessidade permanente de comunicação, porque a rotina do consultório exige que duas pessoas trabalhem em perfeita sintonia.
Quando essa sintonia é construída, o consultório funciona quase como uma orquestra. Muitas vezes, um simples olhar basta para que a Auxiliar de Saúde Bucal compreenda o que o Cirurgião-dentista precisa. Como consequência, os procedimentos fluem com naturalidade, o atendimento ganha agilidade, o paciente percebe segurança e todo o ambiente de trabalho se torna mais leve.
Essa sintonia, porém, não acontece por acaso.
Ela é construída diariamente, por meio da confiança, do respeito e da qualidade da comunicação.
Mas o que acontece quando essa sintonia não existe?
Essa é uma pergunta que merece reflexão.
Quando surgem dificuldades na relação entre o cirurgião-dentista e a Auxiliar de Saúde Bucal, muitas pessoas imaginam que o problema seja técnico. Entretanto, essa nem sempre é a realidade.
Na prática, boa parte dos conflitos nasce da comunicação, das expectativas desalinhadas ou de pequenas situações que nunca foram discutidas de maneira aberta.
E existe um motivo para isso.
A rotina das clínicas é intensa. Entre pacientes, urgências, questões administrativas e financeiras, poucos gestores acreditam ter tempo para parar, conversar, compreender a origem do problema e desenvolver aquele colaborador.
Além disso, falar sobre comportamento nunca é simples.
Como orientar alguém sobre postura profissional, comunicação ou relacionamento sem que isso seja interpretado como uma crítica pessoal?
Esse é um desafio que muitos gestores preferem evitar.
Por isso, a solução mais comum costuma ser substituir a profissional.
À primeira vista, essa decisão parece resolver o problema.
Na prática, porém, o conflito raramente desaparece.
Ele apenas muda de nome.
Alguns meses depois, a nova colaboradora passa a apresentar dificuldades muito parecidas. Isso acontece porque a causa nem sempre estava na pessoa contratada. Muitas vezes, faltava algo que poucas clínicas conseguem construir de forma consciente: alinhamento de expectativas, desenvolvimento comportamental e uma cultura organizacional capaz de orientar como aquela equipe deve trabalhar.
Agora imagine multiplicar esse desafio
Até aqui estamos falando da relação entre um cirurgião-dentista e uma única Auxiliar de Saúde Bucal.
Agora imagine uma clínica com cinco, dez ou vinte colaboradores.
Além das ASBs, convivem diariamente Técnicos em Saúde Bucal (TSBs), recepcionistas, secretárias, gestores e outros profissionais. Cada pessoa chega trazendo sua própria história, personalidade, forma de se comunicar, experiências e expectativas.
Percebe como o desafio muda completamente de dimensão?
Aquilo que já exigia equilíbrio entre duas pessoas passa a envolver toda uma equipe.
É justamente nesse momento que a clínica deixa de enfrentar apenas questões técnicas e passa a lidar com um desafio muito maior: a gestão de pessoas.
Administrar uma clínica significa muito mais do que dominar a odontologia. Significa desenvolver talentos, resolver conflitos, alinhar expectativas, oferecer feedback, fortalecer a comunicação e criar um ambiente onde todos compreendam seu papel e trabalhem em direção ao mesmo objetivo.
Quando isso não acontece, os problemas aparecem rapidamente. A comunicação falha, o retrabalho aumenta, os conflitos tornam-se frequentes, a rotatividade cresce e, inevitavelmente, o paciente percebe que algo não está funcionando bem.
Por outro lado, quando existe alinhamento entre as pessoas, o resultado aparece em todos os níveis. Os procedimentos tornam-se mais organizados, o ambiente fica mais leve, a produtividade aumenta e a experiência do paciente melhora.
Afinal, equipes alinhadas transmitem confiança. E confiança também faz parte do tratamento.
A competência que poucas escolas ensinam
Durante muitos anos, a formação das Auxiliares de Saúde Bucal concentrou-se, principalmente, nas competências técnicas.
E isso faz sentido.
Ninguém pode atuar em um consultório odontológico sem dominar biossegurança, instrumentação, esterilização e os demais conhecimentos previstos na legislação.
Entretanto, a prática mostra que isso representa apenas uma parte da formação necessária.
Comunicação, inteligência emocional, postura profissional, responsabilidade, organização, discrição, capacidade de trabalhar em equipe e habilidade para lidar com conflitos fazem diferença todos os dias. Ainda assim, essas competências raramente recebem a mesma atenção durante a formação.
Talvez porque sejam mais difíceis de ensinar.
Ou talvez porque, durante muito tempo, acreditamos que comportamento era uma característica pessoal, quando, na verdade, ele também pode ser desenvolvido.
O futuro das equipes odontológicas
A odontologia continuará evoluindo.
Novos materiais serão desenvolvidos, equipamentos ficarão cada vez mais modernos e a inteligência artificial ocupará um espaço crescente na rotina das clínicas.
Apesar de todas essas transformações, existe um desafio que provavelmente continuará sendo o mesmo.
As pessoas.
Clínicas de alto desempenho não se diferenciam apenas pela tecnologia que utilizam, mas pela capacidade de construir equipes comprometidas, alinhadas e preparadas para trabalhar em conjunto.
Por isso, a técnica continuará abrindo portas. Ela sempre será indispensável.
No entanto, é o comportamento que sustenta relacionamentos, fortalece equipes e transforma uma boa Auxiliar de Saúde Bucal em uma profissional verdadeiramente indispensável.
Porque, no fim das contas, clínicas de excelência não são construídas apenas por equipamentos modernos ou por profissionais tecnicamente competentes.
Elas são construídas, todos os dias, por pessoas que aprenderam a trabalhar juntas.
Referencias bibliográficas
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) – https://www.gov.br/anvisa
Conselho Federal de Odontologia (CFO) – https://website.cfo.org.br/
Patrick Lencioni – https://www.tablegroup.com/pat/
Daniel Goleman – https://www.danielgoleman.info/
Sobre a autora
Christiane Alves Ferreira é cirurgiã-dentista, pesquisadora, educadora e empresária.
Há mais de duas décadas dedica sua carreira à formação de profissionais da saúde. Ao longo dessa trajetória, acompanhou a formação de mais de 10 mil alunos, experiência que despertou um interesse que vai além da odontologia: entender por que algumas pessoas conseguem transformar conhecimento em ação, enquanto outras deixam oportunidades escaparem.
Neste blog, compartilha reflexões sobre educação, comportamento humano, liderança, saúde e empreendedorismo, sempre conectando evidências científicas com experiências vividas ao longo da sua carreira.
É graduada em Odontologia pela PUC Minas, especialista e mestre em Saúde Coletiva, doutora e pós-doutora em Ciências da Saúde pela UNIFESP. Atualmente dirige a Estação Ensino, instituição dedicada à formação de profissionais da área da saúde.


