
Depois de acompanhar a formação de mais de 10 mil alunos ao longo de quase duas décadas, uma pergunta nunca saiu da minha cabeça: por que alguns jovens conseguem transformar um curso em uma nova vida, enquanto outros deixam grandes oportunidades escaparem pelas mãos?
Ao longo desses anos, acompanhei alunos de cursos técnicos, pós-graduações, cursos de aperfeiçoamento, capacitações e formações para auxiliares da área da saúde. Apesar das diferenças entre eles, uma pergunta sempre permaneceu a mesma: o que faz algumas pessoas aproveitarem uma oportunidade e outras não?
A mesma formação pode levar a destinos diferentes?
Vamos imaginar a Ana.
Ela se matricula no curso de Auxiliar em Saúde Bucal sem saber exatamente onde aquela decisão vai levá-la. Durante o estágio, descobre que gosta da rotina do consultório, aprende a trabalhar em equipe, conquista a confiança do cirurgião-dentista e consegue o primeiro emprego.
O diploma abre a primeira porta, mas ela entende rapidamente que uma carreira não é construída com um único curso. Conforme surgem novos desafios, ela busca novas competências. Fez também o curso técnico na mesma área, aprendeu instrumentação cirúrgica, desenvolveu habilidades de comunicação, tornou-se cada vez mais organizada, assumiu novas responsabilidades e passou a participar de procedimentos mais complexos.
Aos poucos, mudou não apenas sua profissão, mas também sua postura, sua forma de se comunicar, de se vestir e de enxergar o próprio futuro.
Estudar deixou de ser apenas uma obrigação. Tornou-se o caminho para construir a profissional que ela desejava ser.
Agora imagine a Beth. Ela também concluiu o curso. Estudou, foi aprovada e estava pronta para iniciar sua carreira. Restava apenas um último passo: retirar o diploma e fazer a inscrição no Conselho Regional de Odontologia.
Parecia apenas um detalhe.
Mas detalhes, às vezes, mudam destinos.
Ela foi à escola uma vez sem a documentação completa, adiou o retorno para a semana seguinte e acabou sendo engolida por outras prioridades. Surgiu um trabalho temporário, depois outro. Os meses passaram. Não houve uma grande decisão.
Houve uma sequência de pequenos adiamentos.
O diploma nunca foi retirado. A carreira nunca começou.
O conhecimento, sozinho, é suficiente?
Ao longo dos anos, percebi que conhecimento é apenas parte da equação.
As duas alunas aprenderam o mesmo conteúdo, tiveram acesso aos mesmos professores e concluíram exatamente a mesma formação. Mesmo assim, seguiram caminhos completamente diferentes.
Durante muito tempo, achei que bastava oferecer uma boa formação.
Hoje penso diferente.
Entendi que o maior desafio da educação talvez não seja apenas transmitir conhecimento.
O verdadeiro desafio é ajudar cada aluno a transformar uma oportunidade em um projeto de vida.
A história da Ana e da Beth não é um caso isolado. Ela ajuda a explicar um fenômeno que vemos em todo o país.
O que os números do IBGE nos mostram?
Dados recentes do IBGE mostram que cerca de 8,1 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham. Embora esse seja o menor índice dos últimos anos, o fenômeno ainda preocupa, principalmente porque atinge com mais intensidade jovens de baixa renda e mulheres. Esses números nos fazem refletir, mas também levantam outra pergunta.
O verdadeiro desafio é ensinar ou transformar?
Será que o maior problema é a falta de oportunidades?
Ou será que, muitas vezes, estamos deixando oportunidades escaparem por pequenas decisões que parecem insignificantes no presente, mas que acabam mudando completamente o futuro?
Depois de quase vinte anos acompanhando milhares de trajetórias, continuo convencida de uma coisa.
Ensinar uma profissão é fundamental. Mas não basta.
Precisamos criar ambientes que facilitem boas escolhas, fortaleçam a autoconfiança e ajudem cada pessoa a persistir quando surgem os primeiros obstáculos.
Acredito cada vez mais que a formação não é a linha de chegada. É apenas o ponto de partida.
O mercado muda.
A tecnologia muda.
As profissões mudam.
Quem acredita que o diploma encerra o processo de aprendizagem corre o risco de ficar para trás. Já quem desenvolve o hábito de aprender continuamente passa a enxergar oportunidades onde outras pessoas enxergam apenas dificuldades.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da educação nos próximos anos.
Não apenas ensinar uma profissão. Mas ajudar pessoas a construírem um futuro a partir dela.
E você, o que faria?
E eu continuo procurando essa resposta. Já deixou alguma oportunidade escapar? Ou houve alguém — um professor, um familiar ou um colega — que o ajudou a transformar uma oportunidade em uma nova fase da sua vida?
Gostaria muito de conhecer a sua história.
Referências
1. IBGE – Síntese de Indicadores Sociais 2024
Dados sobre jovens que não estudam e não trabalham (“nem-nem”), desigualdades sociais e mercado de trabalho no Brasil.
🔗 https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html
2. OECD – Education at a Glance 2024
Relatório internacional sobre educação, empregabilidade, educação profissional e aprendizagem ao longo da vida.
🔗 https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2024_c00cad36-en.html
Sobre a autora:
Christiane Alves Ferreira é cirurgiã-dentista, pesquisadora, educadora e empresária.
Há mais de duas décadas dedica sua carreira à formação de profissionais da saúde. Ao longo dessa trajetória, acompanhou a formação de mais de 10 mil alunos, experiência que despertou um interesse que vai além da odontologia: entender por que algumas pessoas conseguem transformar conhecimento em ação, enquanto outras deixam oportunidades escaparem.
Neste blog, compartilha reflexões sobre educação, comportamento humano, liderança, saúde e empreendedorismo, sempre conectando evidências científicas com experiências vividas ao longo da sua carreira.
É graduada em Odontologia pela PUC Minas, especialista e mestre em Saúde Coletiva, doutora e pós-doutora em Ciências da Saúde pela UNIFESP. Atualmente dirige a Estação Ensino, instituição dedicada à formação de profissionais da área da saúde.


